Caso Clínico: Medo da intimidade

Mulher de 28 anos, solteira.

intimidadA paciente veio ao meu consultório querendo entender o porquê de sua insegurança, de seu medo de ser abandonada pelo namorado, caso viesse a contrariá-lo ou desagradá-lo. Por conta desse temor, não conseguia verbalizar, expressar clara e diretamente sua insatisfação ou contrariedade diante de determinadas atitudes do namorado. Desta forma, fechava-se num mutismo ou explodia chorando, mas sem expressar verbalmente o que a incomodava. Embora sentisse afeto, amor pelo namorado, tinha também muita dificuldade de se entregar a esse relacionamento, de expressar verbalmente o amor que sentia pelo rapaz, pois achava que, se fizesse isso, ficaria vulnerável, fragilizada e correria o risco de ele se aproveitar de sua “fraqueza” e abandoná-la.

Desde criança, sempre foi muito fechada, introspectiva, sentia tristeza, melancolia profunda, um vazio e falta de motivação pela vida, sem encontrar um motivo real que justificasse esses sentimentos. Em reuniões sociais, preferia se isolar – ficava observando e ouvindo as pessoas, e pouco falava. Reservada, não se abria nem com os seus familiares.

Ao regredir, relatou: – Vejo uma menina levando-me para o portão(artifício técnico que sempre utilizo nessa terapia – que funciona como um portal que separa o passado do presente, o mundo espiritual do mundo físico). Essa menina, eu a reconheço, é a mesma que aparece em meus sonhos desde os meus 15 anos de idade. (pausa). Ela agora me ajuda a atravessar o portão. Ela é um ser desencarnado, está vestida com um roupão branco até os pés. Sinto também a presença de meu mentor espiritual, embora não o veja, sei que ele está próximo desse portão(muitos pacientes visualizam o seu mentor espiritual; outros não, mas, intuitivamente sentem a sua presença). Atravessei o portão e agora estou vendo uma névoa. O lugar me parece ser em Londres. Vejo homens e mulheres andando numa rua de paralelepípedo. Eu sou mulher, estou andando por essa rua. Uso um vestido preto, pesado, comprido, bem armado, típico daquela época antiga(a paciente não soube precisar a época). Eu me sinto perdida, confusa, fui abandonada pelo meu marido. Sinto que ele é o meu namorado da vida atual( fala chorando).

Não entendo, por que ocorreu esse abandono?

– Volte antes dessa cena, retroceda para ver o que aconteceu para você ser abandonada – Peço à paciente.

– Sinto agora que o meu mentor espiritual me puxou dessa cena, da rua onde estava nessa vida passada, para ficar como espectadora. Ele me pede apenas para observar as cenas de meu passado e faz questão de me lembrar que essas cenas não existem mais, e que esses sentimentos de dor e falta de vontade de viver que senti nessa vida passada, não me pertencem mais.

Vejo agora que nessa vida passada, eu e o meu marido vivíamos uma vida de muita privação, de muita pobreza, embora não tivéssemos filhos. Nós nos amávamos, mas ele foi em busca de ganho fácil e me abandonou sem se explicar; simplesmente saiu de casa para viver com uma mulher mais velha do que eu. Ela era uma mulher de posses, e eu acabei ficando sozinha(paciente chora copiosamente).

– Avance mais para frente nessa cena, anos depois – Peço-lhe novamente.

– Eu saio caminhando pelas ruas e nunca mais volto para onde a gente morava. Ele não podia ter feito aquilo! Ando pelas ruas perambulando. (pausa).

– Vá para o momento de sua morte nessa vida passada – Peço à paciente.

– No meu desencarne, levei sentimentos profundos de tristeza e melancolia. São os mesmos sentimentos que trago em meu perispírito(corpo espiritual) na vida atual. Fica claro o motivo de sentir, desde criança, um vazio, tristeza e melancolia tão profundos. A impressão que me vem é que surtei, morri louca, fiquei totalmente alienada de mim mesma e da realidade que me cercava.Com o abandono naquela existência passada, isolei-me, sem compartilhar com ninguém a minha dor. Explica também o porquê de hoje ter receio de expressar o meu amor por ele. Na vida atual, ainda acredito que, se eu expressar verbalmente o meu verdadeiro sentimento por ele, ficarei vulnerável, fragilizada, porque na vida passada, entreguei-me totalmente, e ele me abandonou.

O meu mentor espiritual está me dizendo que, naquela existência passada, era o máximo que o meu namorado da vida atual poderia ter feito. Ou seja, dentro de sua consciência e evolução espiritual da época, pelo sofrimento da falta de dinheiro, ele optou em ficar com uma mulher de posses. No entanto, após o meu desencarne, ficou sabendo que me tornei uma indigente e isso o fez se sentir muito culpado. Após seu falecimento, levou consigo o peso da culpa. Ele carrega ainda na vida atual esse sentimento, embora não tenha consciência disso(a barreira da memória, que se manifesta em forma de amnésia, não o deixa lembrar).

Meu mentor espiritual diz ainda que há muitos desafios a serem vencidos entre nós. Todavia, ele fala que há um compromisso que aceitamos antes de reencarnarmos na vida atual: o de trazermos filhos de nossa união. Ele finaliza dizendo que a própria vida se encarregará de providenciar os encontros necessários, pois os frutos dos medos, insegurança de minha parte, ainda bloqueiam o meu caminho. Mas diz que basta estar atenta para não deixar que esses sentimentos me influenciem, e, com o coração cheio de serenidade e amor, tudo se resolverá a contento brevemente…Estou sentindo aqui no consultório a presença do meu mentor espiritual e aquela menina que me ajudou a atravessar o portão no início da regressão. Eu a vejo em meus sonhos há muitos anos. Ele fala que essa menina pode vir como minha filha na encarnação atual.

Após passar por mais duas sessões de regressão, a paciente estava se sentindo mais solta, mais expansiva com as pessoas. Não sentia mais aquele vazio, tristeza e melancolia profundos de outrora. Estava sentindo também mais motivada pela vida, pois o medo de ser abandonada pelo namorado havia desaparecido. Ao invés de entrar num mutismo ou explodir em prantos quando ele a desagradava, agora conseguia dialogar, verbalizar sua insatisfação, bem como demonstrar afeto por ele.

Foto: reprodução

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