Caso Clínico: Por que não consigo constituir uma família?

Homem de 39 anos, solteiro.

casa brancaNa entrevista de avaliação, ao lhe indagar o motivo de sua vinda ao meu consultório, o paciente me disse de forma clara e objetiva: “Não entendo por que sempre quis constituir uma família, mas nunca fui adiante com a ideia, pois sempre acontece alguma coisa: ou as mulheres não confiam em mim, ou eu que não confio nelas. Por isso, doutor, o que me trouxe aqui é o relacionamento com a minha namorada: eu a amo, quero casar com ela, porém, ela não confia em mim, embora nunca tenha feito nada para ela desconfiar de mim.

Ela fica sempre com um pé atrás, desconversa quando falo que quero constituir uma família, casar, ter filhos. Comprei uma casa do jeito que ela queria, da cor que queria, mas quando fiz a surpresa, ela ficou quieta, parada e começou a chorar, me disse que não entendia o porquê de tudo aquilo, que eu estava pressionando-a. Isso para mim foi à gota d’água: acabamos rompendo o namoro”.

Por ser muito ansioso, o paciente me disse que sua ansiedade se agravou após o rompimento com a namorada. Com o término, ficou sem rumo, não tinha mais ânimo para nada e entrou numa crise depressiva.

Após passar por algumas sessões de TRE, não conseguiu regredir e nem conversar com o seu mentor espiritual, mas perseverante e acreditando que encontraria suas respostas, disse que iria continuar com o tratamento; então, na última sessão, conseguiu regredir e me descreveu: “É uma vida passada… Estou vendo duas crianças, um menino e uma menina brincando no jardim… Vejo uma casa branca, tem uma varanda… Lembra muito a casa que comprei para minha namorada de hoje.

– Entre na casa – Peço ao paciente

Subo os degraus, passo pela varanda, abro a porta, é uma casa bem organizada e limpa… Vou até a cozinha, tem uma mulher de costas fazendo comida.

– Aproxime-se dela e me descreva como ela é? – Peço novamente ao paciente.
Ela é branca, cabelos loiros até os ombros, olhos verdes, é linda, mas ela chora… .

– Por quê? – Perguntei-lhe.
Não consigo entender… .

– Volte na cena e veja o que acontece?
É noite, as crianças e essa mulher estão esperando alguém, mas ele não chega… É o marido e pai das crianças; ele sempre chega atrasado, nunca cumpre o que promete à família. Elas acabam jantando sem o marido. A mulher põe as crianças para dormir e vai à janela esperá-lo.

Ela tem um olhar distante, parece muito o olhar da minha namorada: distante, vago, triste… Um homem entra na casa, ela o recebe com um sorriso triste e pergunta se quer jantar, ele responde grosseiramente que não, disse que o dia foi horrível, que ela não sabia o que ele fazia para ter aquela vida boa… Esse homem aí sou eu, doutor, arrogante, nossa!

– Prossiga – Peço ao paciente.
O dia seguinte é a mesma coisa: chego atrasado, sento na poltrona, fumo um charuto e leio o meu jornal. Não falo com meus filhos, eles têm um amor muito grande por mim, graças à minha esposa. Ela diz que sou muito ocupado, mas que à noite irei ao quarto deles dar beijinhos de boa noite.

Na verdade, doutor, eu não merecia essa família, pois eu traia a minha esposa com todas as mulheres que podia, tive filhos fora do casamento, gastava dinheiro com farras. Ela sabia de tudo, mas nunca falou nada, sempre me respeitou, me amou, me esperava de braços abertos na esperança de um dia ser só dela.

Mas eu fazia questão de chegar sempre tarde, reclamava de tudo o que ela fazia, nunca estava presente, e não a notava como mulher, nem lhe dava carinho. As pessoas diziam que ela era muito bonita, que parecia um anjo, mas eu fazia questão de nunca notá-la, não tinha medo que ela fosse embora; aliás, isso nem passava pela minha cabeça. Agora entendo o choro dela, doutor.

– Avance na cena – Peço ao paciente.
Ela prepara a comida, enquanto as crianças brincam lá fora, a casa está impecável como sempre, mas vejo no canto, atrás da porta, duas malas. Ela deixa tudo pronto, pega as malas, chama as crianças e sai em direção ao portão. Os três param, olham, dão tchau para aquela casa que parecia ser de uma família feliz. Parece brincadeira, doutor, essa casa lembra muito àquela que comprei para minha namorada da vida atual. Ela sonhou com essa casa, descreveu para mim; por isso, tentei comprar uma que fosse o mais parecido possível com ela.

– Meu Deus, como fui um idiota! (paciente fala em prantos).
– À noite, quando cheguei encontrei a casa escura, senti um aperto no peito, um arrepio, entrei chamando pela minha esposa, pelos meus filhos e encontrei um bilhete que dizia assim:

Meu único e verdadeiro amor, peço desculpas pela minha atitude de ir embora, mas não aguento mais te ver sofrer, sei que eu e as crianças somos um fardo para você e de maneira alguma quero te prender. Sinto que não és feliz ao nosso lado, pois se sente sufocado com a nossa presença. Sentirei muito tua falta, meu amor, mas assim terá sua vida livre como um pássaro. Iremos para bem longe, quem sabe em outra vida nos encontraremos e poderemos viver nosso amor junto com nossos filhos. Por falar neles, não foi fácil convencê-los em te deixar; infelizmente, menti para eles, talvez não me perdoem. Giovanna e Guilherme te amam, a Gigi deixou um beijinho e o Gui deixou um abraço. Bom, meu amor, amo você, saiba disso! Veremos-nos na eternidade.
Yanna

Fiquei desesperado, não acreditava, ela foi embora, levou meus filhos, corri para o quarto pensando que se tratava de uma brincadeira e pude notar que faltavam algumas peças de roupas dela e das crianças. Fui até a casa de meus pais, dos pais dela, dos nossos amigos, ninguém viu nada, nem sabiam de nada; ela não tinha falado pra ninguém que iria embora, evaporaram, simplesmente sumiram. Gastei o que tinha e o que não tinha procurando por eles, mas nunca mais os vi.

– Avance nessa cena – Peço ao paciente.
– Estava em um bar quando uma jovem perguntou se alguém conhecia Antônio Constantino, e o garçom gritou: – Antônio, tão te procurando aqui!

Olhei e logo reconheci a minha Gigi, a Giovanna, minha filha. Minhas pernas trêmulas não aguentavam caminhar até ela, cambaleei e cai de joelhos pedindo perdão por tudo que a fiz passar; ela com um sorriso estendeu os braços e disse: – Paizinho, que saudade, e me beijou – foi um beijo longo e demorado.

A minha esposa nunca falou para eles quem eu era de verdade, o monstro que era. Ansioso, perguntei: E o Guilherme, onde está? E sua mãe? Ela respondeu: – Calma, paizinho! O Gui está casado, tem dois filhos lindos, já a mãe faleceu há dois anos. Ela me pediu para te encontrar, para saber como você estava, e para te pedir perdão.

Desesperado, chorava igual uma criança, pois havia perdido uma família maravilhosa, uma mulher que me amava e que, no fundo, eu também a amava. (pausa). Vejo agora, doutor, aqui no consultório, uma cor azul bem clara tomando forma e está falando algo, mas não consigo entender…

– Calma, entre em sintonia, provavelmente é o seu mentor espiritual – Peço ao paciente. (pausa).

– É ele mesmo, diz que agora eu tenho condições de entender o porquê da minha namorada da vida atual ter medo que eu a faça sofrer, pois a fiz sofrer nessa vida passada com nossos filhos, mas afirma que isso não irá acontecer de novo. Revela também que vamos ficar juntos, que vou ter uma nova oportunidade de ser feliz, que meus filhos virão novamente, pois estão prontos para vir.

– Pergunte-lhe como pode fazer para que sua namorada não desconfie mais de você e aceite sem medo casar e ter filhos? – Peço ao paciente.

Ele diz que a partir do momento que me foi revelado o que aconteceu entre nós naquela vida passada, e como houve o meu arrependimento do fundo de meu coração, afirma que a alma dela irá sentir, e com isso, me aceitará.

Dois anos após o término da terapia, o paciente enviou um e-mail me agradecendo pela ajuda recebida e me dando duas boas notícias: havia se casado com sua namorada, e ela estava grávida de dois gêmeos, a Giovana e o Guilherme, vindo novamente como seus filhos, conforme o seu mentor espiritual havia lhe revelado em sua última sessão de regressão.

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