Resgate sua Criança Interior

Não se pode resolver problemas com palavras,
mas só com a experiência, não apenas a experiência
corretiva, mas revivendo o medo inicial (tristeza, raiva).
Alice Miller

 

Os leitores assíduos de meus artigos e casos clínicos certamente ficaram maravilhados com os enormes benefícios nas vidas de meus pacientes após terem passado pelas sessões de regressão de memória na TRE (Terapia Regressiva Evolutiva) – A Terapia do Mentor Espiritual – método terapêutico de autoconhecimento e cura criado por mim em 2006. Todavia, após ter conduzido mais de 20.000 sessões de regressão, recentemente a espiritualidade me orientou, sugeriu que eu complementasse em meu trabalho com a TRE (essa terapia é evolutiva não só por colaborar na evolução espiritual dos pacientes, mas também pelo seu método terapêutico estar em constante evolução, aprimoramento) a Análise Transacional (A.T.) para que os pacientes possam se conhecer melhor, lidar com suas emoções e, com isso, melhorar a qualidade das relações humanas.

Dr. Eric Berne, psiquiatra canadense, criador da Análise Transacional na década de 50, afirmava que carregamos dentro de nós os nossos pais, o adulto que somos e a criança que fomos. Ele se baseou em três pressupostos fundamentais que serviram de base para o surgimento da Análise Transacional, uma teoria da personalidade humana e um método terapêutico de autoconhecimento eficaz e potente.

Os três pressupostos são:
a) Todos nós tivemos pais ou alguém que fez a função de;
b) Todos temos um lado adulto da personalidade que funciona como um computador interno disponível que processa todas as informações do ambiente para resolvermos os problemas;
c) Todos já fomos crianças, isto é, um lado infantilizado, imaturo de nossa personalidade. É comum as pessoas medirem o grau de maturidade através da idade. Na verdade, a maturidade se mede nas atitudes.

Você tem consciência quando está agindo feito criança?


Não é raro observar alguns comportamentos infantis de pais em relação a seus filhos, de irmãos muito mais velhos em relação aos menores e até mesmo da esposa em relação ao seu marido ou vice-versa.

Veja o caso da esposa que briga com o marido por ciúmes. Ele dá um beijo na filha e a esposa morre de ciúmes e disputa com a filha o seu afeto. Neste aspecto, essa esposa é uma criança “fantasiada de adulto”, pois age de forma possessiva e infantil.
Ao brigar com o marido, ela está regredida cronologicamente falando. Na verdade, está brigando com o seu pai por que ele dava mais atenção à sua irmã quando ela era criança. Portanto, quem tem uma “criança mal resolvida” dentro de si tende a se tornar uma péssima mãe, confundindo-se com dela.

Pai é a mesma coisa, quer os brinquedos dele. Compra um videogame para o filho, mas não o deixa brincar, fica disputando o brinquedo como fazia com o seu irmão na sua infância. Muitos pais morrem de ciúmes do filho recém-nascido se queixando com as esposas que elas não lhes dão a devida atenção. Muitos ainda querem seus carros importados e não se ligam nos problemas financeiros de suas famílias. Foram mimados quando criança e, por isso, a dificuldade de lidarem com as suas frustrações, não aceitando a realidade.

Outros reagem à frustração de forma irada, aos gritos. Em muitos casos uma explosão de ira provocada por um motivo aparentemente banal pode ter suas raízes num passado remoto. Na maioria das vezes esse grito pode ser um grito contido que quando criança teve que engolir diante de um pai autoritário e castrador em sua infância.
Desta forma, feridas abertas na infância podem deixar marcas profundas e criar distorções em nossa personalidade.

Portanto, para gerar comportamentos saudáveis é preciso tratar dessa ferida conversando com a ”criança interior” que existe em todos nós, através da regressão de memória.

Dr. Eric Berne dizia: “Os pais deliberada ou inconscientemente ensinam a seus filhos desde o nascimento como se comportar, pensar, sentir e perceber. Libertar-se destas influências não é algo fácil. Grande parte do que é ensinado na família tem caráter opressivo. Estes ensinamentos impostos às crianças é que eu denomino de treinamento básico de vida, que inclui um ataque sistemático, uma castração dos três potenciais humanos primários: intimidade, consciência e espontaneidade”.

Concordo e assino embaixo a respeito das declarações do psiquiatra canadense acima referidas. Realmente, os pais têm uma forte influência na personalidade da criança; porém, trazemos o nosso caráter, a nossa personalidade de vidas passadas de acordo com a visão reencarnacionista.

Numa ocasião, um paciente, delegado da polícia federal, me confidenciou: “Sabe, Osvaldo, o que vou falar me constrange e é algo que me incomoda desde quando era criança. Nunca concordei com as atitudes de meus pais e irmãos. Todos roubavam e me obrigavam a fazer o mesmo, mas eu me recusava a fazer o que eles queriam. Até hoje eles me criticam pela minha atitude ética e o meu relacionamento com os meus familiares piorou ainda mais pelo fato de ter me tornado um policial”.

Por outro lado, outro paciente, um rapaz de 22 anos, me procurou por ter também problemas de relacionamento com os pais. Filho do meio de cinco irmãos teve uma boa educação, carinho e sentido de limites por parte dos pais. Tinha tudo para ser uma pessoa bem sucedida. Não obstante, nunca quis saber de estudar e gostava de se envolver com traficantes de drogas, assaltantes de carros, etc. O próprio paciente reconheceu que seus pais não tiveram nenhuma responsabilidade por suas inclinações negativas. Por isso, queria entender o porquê dessas inclinações dentro da TRE.

A Análise Transacional, a AT, como uma psicologia tradicional, que lida apenas com essa vida, realmente não explica de forma convincente o porquê das atitudes desses dois pacientes.
Por outro lado, não há como negar que os nossos pais, o meio ambiente em que fomos criados, os fatos ocorridos quando estávamos no útero materno e em nossa infância, reforçaram – e muito – as inclinações, tanto negativas como positivas, que trazemos de vidas passadas.

Desta forma, uma coisa não exclui outra. As duas terapias (TRE e AT) se completam e são muito importantes para um melhor entendimento do homem, esse ser complexo e desconhecido.
A ciência e a tecnologia tiveram grandes avanços, mas a ciência do homem, do comportamento, ainda se encontra na fase pré-embrionária, não explicando de forma convincente como ocorre o processo de mudança, de cura terapêutica nos vários distúrbios psíquicos, psicossomáticos, orgânicos de causa desconhecida, comportamentais e de relacionamento interpessoal.
Muitos pacientes foram beneficiados num curto espaço de tempo ao se submeterem à Terapia Regressiva Evolutiva(TRE) – A Terapia do Mentor Espiritual. Mas, honestamente falando, sou incapaz de explicar o mecanismo exato de como ocorreu a cura na vida desses pacientes. Evidentemente, ainda demanda muita pesquisa para uma melhor compreensão de como ocorre o processo de cura terapêutica.
Mas não tenho dúvida alguma em afirmar que a TRE e a AT nos fornecem subsídios importantes para entendermos e melhorarmos a forma de nos relacionarmos com os pais, irmãos, cônjuges, amigos, chefes, colegas de trabalho, etc..
Nos próximos artigos, irei abordar de maneira detalhada as estruturas internas que compõem o nosso mundo interior, isto é, a nossa personalidade dentro da ótica da Análise Transacional.

 

Caso Clínico:
Brigas constantes com a esposa
Homem de 32 anos, casado, um filho de 2 anos.


Veio ao meu consultório por conta de suas brigas constantes com sua esposa. Dizia ser muito impaciente, estourado, nervoso. Queria entender o motivo de ser tão explosivo e impaciente.
Segundo o relato do paciente, seu temperamento explosivo, aliado ao ciúme que sentia pelo filho de 2 anos é que estavam desencadeando suas frequentes brigas com a esposa a ponto dela querer separar-se dele. Embora fosse filho adotivo, nunca faltou amor por parte dos pais adotivos. Mas, desde criança, as coisas tinham que ser do seu jeito. Costumava entrar em depressão, pois sempre teve dificuldade de ouvir um não, de suportar uma frustração. Não gostava de ser contrariado.

Ao regredir, o paciente se viu com 4 anos de idade, pele morena, cabelos lisos e claros. Sentia-se revoltado pelo fato dos tios darem mais atenção ao seu pai do que para ele. Reagia também com raiva por se sentir rejeitado. Ficava agitado, nervoso e inquieto. Viu-se brincando sozinho, pois não tinha amigos na rua onde morava. Por isso, tinha que conviver com pessoas mais velhas. Sentia tristeza, solidão, queria muito ter amigos de sua idade.
O paciente me disse: – Não me vejo brincando com crianças de minha idade, convivo só com pessoas mais velhas… Vejo uma prima bem mais velha comentando para meus pais adotivos que iria adotar uma criança, mas ao ver o meu jeito inquieto e nervoso, acabou desistindo. Eu me sinto culpado e acabo me afastando de todos, sentindo-me mais sozinho ainda.

Em seguida, pedi para que o paciente avançasse na regressão para a fase de sua adolescência: – Continuo me sentindo sozinho. Perdi muito amigos e me sinto menosprezado. Sempre termino com as minhas namoradas, até que conheci minha atual esposa. Foi paixão à primeira vista. Eu podia ficar longe de todos, mas não dela. Acabamos casando e cinco anos depois tivemos o nosso filho.

Meu filho sempre tomava o nosso tempo. Aí eu fiquei estressado, vieram as discussões. Ele me atrapalhava, pois não podia sair com a minha esposa, assistir TV juntos, ir ao restaurante, sempre tínhamos que dar atenção ao nosso filho. Isso me magoava muito, ia guardando mágoas, ficava chateado, angustiado, com raiva, nervoso e impaciente.

Estava me sentindo muito pressionado, triste. Meu filho me afastava de minha esposa e o culpava por isso. Eu pensava: – Criança é nova, tem toda a energia do mundo, o que não ocorre com os idosos. Eles, sim, merecem mais atenção.
Eu o interpelei dizendo: – Da mesma forma que os idosos, as crianças também necessitam de atenção, apoio e ajuda. E o seu filho tem apenas 2 anos. O paciente então me respondeu: – Mas o problema é que não o vejo como criança. Quando meu filho quer brincar comigo eu fico bastante constrangido, não sei lidar com ele, tenho vontade de sair correndo. Fico com muita vergonha, eu me censuro porque sinto e ajo como se tivesse menos idade. Não consigo pegá-lo no colo, brincar com ele, também não tenho muita paciência.

Antes de encerrarmos a sessão, eu lhe disse: – Você sofre de Síndrome de Peter Pan (personagem de desenho animado de Walt Disney que não queria crescer, se tornar adulto).

Faltou em sua infância conviver com crianças de sua idade. Daí hoje o seu constrangimento, sua inibição de brincar com seu filho.

Expliquei-lhe que era natural se frustrar com frequência diante de uma negativa, pois ele não havia aprendido a ouvir um não (seu limite de tolerância à frustração era muito baixo).

Era necessário, portanto, diminuir seu orgulho, desenvolver a humildade e conversar mais com sua criança interior. É o que fizemos nas sessões posteriores, alternando com a hipnoterapia, incutindo em seu subconsciente palavras e frases afirmativas de autoconfiança, paciência, tolerância, equilíbrio, compreensão e atitudes adultas.

Gradativamente, no decorrer do processo terapêutico, o paciente foi se permitindo brincar com o seu filho, pegá-lo no colo, dialogar mais com as pessoas – principalmente com sua esposa – ao invés dos comportamentos explosivos e agressivos. Após 10 sessões de regressão, demos por encerrado de forma positiva o nosso trabalho.

 

 

 

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