Análise Transacional – Parte 2

O Dr. Eric Berne, criador da Análise Transacional (AT), dizia que é preciso saber se comunicar bem consigo mesmo para se comunicar melhor com as pessoas. Mas para se comunicar bem consigo mesmo é necessário saber como se processa o diálogo interno, esse bate-papo interno entre as partes de nossa personalidade.
Ele baseou sua teoria da personalidade em três verdades absolutas, inquestionáveis: a) Todos nós tivemos pais ou alguém que fez a função de; b) Todos têm um adulto, isto é, um lado lógico, racional da personalidade; c) Todos já fomos crianças um dia.


Os três aspectos da personalidade (Pai, adulto e criança) comunicam-se entre si continuamente dentro de nossa cabeça em forma de diálogos internos.

 

1) Análise Estrutural da Personalidade:

a) Pai: É o lado autoritário, exigente, crítico, preconceituoso, carinhoso e nutritivo, que incorporamos de pessoas influentes em nossa vida, tais como: pai, mãe, avós, tios, professores, irmãos mais velhos que conviveram conosco. Nós experimentamos essas pessoas em forma de vozes que falam com a gente em nossa cabeça, que nos repreendem ou conversam conosco em forma de diálogos internos. Exemplo:
Você tem que…
Você deveria fazer, porque senão…
Desta forma, o objetivo da AT é fazer a pessoa reencontrar sua autonomia, isto é, resgatar a capacidade de escolhas do indivíduo, a liberdade em optar. Neste sentido, uma pessoa autônoma (e não autômato) é aquela que se ‘desrobotizou’, ou seja, aprendeu a pensar, sentir e agir por si mesma e não sob a influência dos pais.
Em verdade, toda nossa educação foi baseada no binômio: Permissão e Proibição. Muitas pessoas no seu processo educacional tiveram, por exemplo, permissão para pensar, para ser inteligente, questionar e resolver seus problemas no dia-a-dia, porém a proibição de sentir, isto é, demonstrar seus sentimentos. É o caso dos homens. Muitas vezes os pais proíbem os meninos de chorar, demonstrar tristeza, o que não ocorre com as meninas que têm permissão para chorar; portanto, podem sentir e demonstrar sua tristeza. Proibir, isto é, desestimular uma criança a pensar, é fazer por ela, pensar por ela, não a estimulando a pensar por si, fazendo as tarefas escolares de seu filho, por exemplo. Assim, o grau de autonomia, isto é, a liberdade de pensar, sentir e agir aumenta na medida em que se aumenta o nosso autoconhecimento.

b) Adulto: É o lado racional, lógico, coerente da personalidade que funciona como um computador interno disponível e que filtra todas as informações da realidade externa, isto é, testa a realidade para se resolver os problemas do dia-a-dia. É o nosso bom senso, por exemplo, quando tentamos persuadir uma pessoa, buscando convencê-la através do diálogo, de uma argumentação lógica, coerente e sensata.

c) Criança: É o lado infantilizado, isto é, a criança que fomos

em nossa infância e que se perpetua na fase adulta. É o lado de nossa personalidade que é dominado por nossas emoções (medo, raiva, tristeza, alegria, inveja, ciúmes, insegurança, etc.), que costuma, por exemplo, ter acessos de fúria, é impaciente (sócio do clube do pavio curto), como fazia quando tinha cinco anos de idade.
É o lado de nossa personalidade que entra no vitimismo, isto é, se sente um coitadinho, culpando, responsabilizando os outros pela sua infelicidade e que fica na maior parte do tempo reclamando, se queixando, ao invés de buscar soluções, respostas para os seus problemas. Quem tem uma criança mal resolvida dentro de si, tende a se tornar uma péssima mãe ou pai, pois não vai ser capaz de compreender, perceber ou mesmo dar proteção e apoio aos filhos.

Mãe e pai são diferentes de genitora e genitor.

 

A mulher que carrega um filho na barriga e depois não ama, não cuida, não educa… essa mulher se chama genitora.

Mãe é quem levanta de madrugada para cuidar do filho doente, quem se preocupa com o que o filho vai levar de lanche para a escola, quem coloca para dormir, ajuda a fazer boas escolhas, etc.

Por outro lado, genitor (a) é apenas alguém que gera, mas que não desempenha ou não desempenha adequadamente as funções de mãe e pai. É o caso do pai que tem ciúme do filho pelo fato de sua esposa dar mais atenção a ele. Acaba se sentindo rejeitado, não amado e fica com raiva de seu filho. Ou ainda aquele pai que não suporta ver seu filho se sair melhor do que ele financeiramente. Busca competir com ele, tendendo sobrepujá-lo. O mesmo se dá com a mãe que, ao invés de cuidar da filha, quer inverter os papéis, ser cuidada. Por sua vez, a filha não a vê como mãe, mas como uma irmã.
Conheci uma mãe que seduzia todos os namorados da filha, buscando competir com ela. Temos o mau hábito de medir nossa maturidade pela idade. Na verdade, maturidade se mede pelas atitudes.
Muitas pessoas se comportam como crianças mimadas, mesmo ao atingir 30, 40, 50 ou mais anos de idade. Portanto, entrar em contato com essa criança interior que se perpetua na vida adulta, detectando suas carências, é a maneira mais segura de reconstruir o nosso Eu verdadeiro.



CASO CLÍNICO:
Agressão Física.

Homem de 40 anos, solteiro.

O paciente veio ao meu consultório por conta de seu quadro depressivo. Desde então tomava regularmente antidepressivo (lexotan), mas continuava vindo sempre a ideia de suicídio. Seu pessimismo era muito intenso, a libido inexistente (falta de apetite sexual). Antes de 1992, seu interesse sexual era normal, gostava de conversar, dançar, ouvir músicas. Ao me procurar estava totalmente retraído, não se emocionava mais, estava apático. Ao tomar moderador de apetite, desencadeou uma segunda crise depressiva. Desta forma, queria saber o porquê dessas crises de depressão, pessimismo e desinteresse pela vida.

Ao regredir, ele me relatou: “Estou vendo os meus pais, são muito carinhosos. Meu pai está bem vestido, usa barba, eu o vejo em pé dentro de casa. Estou sentado no chão brincando, devo ter uns três anos. Minha mãe está sentada na cadeira, ela é branca, cabelos pretos. Meu pai é alto, cabelos pretos e é moreno. Não vejo os meus irmãos”.

– Avance mais para frente na sua infância – peço-lhe.
“ Agora estou com sete anos, meu cabelo é cortado baixinho, uso topete. Visto uma calça com suspensórios, calço um sapato e meia branca. Sou feliz com os meus pais (pausa).

– Avance mais para frente nessa cena – peço-lhe novamente.
“ Meus pais me deixam na escola. É uma escola de padres, é na Bolívia. As carteiras são individuais, o professor é padre e deve ter uns 50 alunos. Estou vestindo uma calça azul, camisa e blusa branca. Era o uniforme da escola. Agora vejo outro padre. Ele também é professor, só que de outra turma. Ele sentou-se do meu lado, ainda não começou a aula. Ele brinca comigo, fala em espanhol. Eu ainda não domino bem o idioma porque antes dos sete anos, minha família morava no Brasil, em São Paulo. Eu não entendi bem o que ele me disse e não gostei da brincadeira e lhe respondi de forma agressiva. Ele não gostou e foi se queixar para o meu professor. O professor me chamou e na frente de todos os alunos, torceu minha orelha e me encheu de bofetadas, e, em seguida, me mandou de volta à minha carteira. Ele falou: ”Que isso sirva de exemplo para todos”. Eu estava atordoado, assustado, não estava entendendo nada. Achei que o meu professor iria apenas chamar a minha atenção, mas, ao invés disso, me agrediu brutalmente (paciente começa a chorar copiosamente). Meu rosto ficou vermelho, doía bastante. Ele deixou as marcas das mãos dele no meu rosto. Eu voltei para a minha carteira, não chorei. Os meus colegas estavam todos apavorados… Eu me senti sozinho, perdido, desamparado (paciente chora intensamente). Estava me sentindo muito humilhado e com muita raiva“.

– Repita essa palavra (raiva) – peço-lhe.
“Raiva! (paciente grita várias vezes). Não contei aos meus pais essa humilhação que passei. Não entendi direito a brincadeira daquele padre; eu não falava direito o espanhol. Após esse incidente, sempre evitava o meu professor e aquele padre que brincou comigo. Após concluir o ensino fundamental, voltamos para São Paulo. Quando tinha 20 anos, voltei à Bolívia e fui procurar os dois padres. Infelizmente, nenhum deles estava mais no colégio. Tinham sido transferidos para outro país. Eu só queria entender o que foi que aconteceu naquele dia. O mal-entendido que houve com aquele padre fez com que me tornasse uma criança séria, que não gostava de brincadeiras. Eu me fechei, ficava triste, não era de sorrir muito. Acho que me fechei de tal forma que acabei negando esse incidente, tanto é verdade que eu não me lembrava desse episódio. Só vim a lembrar agora na regressão de hoje”.

Na regressão seguinte, pedi para que o paciente imaginasse um palco de um teatro.
– Imagine-se sentado na poltrona da 1ª fileira do auditório. O teatro está vazio. Imagine vendo aquele padre que brincou com você, no palco desse teatro. Focalize o holofote só nele e converse com ele (pausa). Pergunte por que ele foi queixar-se com o seu professor? Diga-lhe também que não entendeu as suas brincadeiras porque não dominava bem a língua espanhola.

Ao perguntar ao padre, ele lhe respondeu: “Na verdade, eu não sabia que você não entendia o espanhol. Eu achei que você estava sendo muito mal educado comigo, por isso me queixei com o seu professor. Mas, sinceramente, eu mesmo fiquei surpreso com a reação violenta de seu professor. Achei que ele iria conversar com você, não esperava que fosse agredi-lo daquele jeito. Eu me senti culpado e constrangido com o ocorrido. Peço desculpas por ter provocado aquele incidente”.

Paciente chora emocionado e diz: “Agora entendo o que aconteceu. Vejo que houve um mal-entendido de ambas as partes. Mas agora eu consigo te perdoar. Para mim ficou claro o que ocorreu naquele dia”.

Após o diálogo, pedi para que se despedisse do padre.

No final da sessão, o paciente me disse que, na verdade, sentia mágoa daquele padre e não de seu professor. Após passar por mais quatro sessões de regressão, ele me disse que não se sentia mais depressivo, sentia-se mais solto, mais disposto e comunicativo. Estava motivado e esperançoso e já tinha planos para o seu futuro.
Demos por encerrado o nosso trabalho.

 

 

 

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